OS GOVERNADORES “GENERAIS” DO RIO,MG E SP FORAM OS VERDADEIROS GOLPISTAS DE 1964
Os governadores Carlos Lacerda (Estado da Guanabara), Magalhães Pinto (MG) e Ademar de Barros (SP) - fardados com recursos do IA - foram mais golpistas em 1964 do que muitos generais de Exército, inclusive o primeiro presidente Castelo Branco.
Se é para reescrever a História, que se conte a história inteira.
O Brasil já teve mais de 700 escolas, viadutos, rodovias, hospitais e outros logradouros públicos batizados com os nomes dos generais-presidentes do regime militar que começou em 1964 e terminou em 1985.
Muitos foram rebatizados. A justificativa: não seria admissível homenagear personagens ligados a um período marcado por autoritarismo e graves violações de direitos humanos.
Concordo.
Mas há uma pergunta que incomoda: por que a mesma régua não é usada para todos os personagens de 1964?
Eu vivi aqueles anos. Parte deles, como repórter. Vi e acompanhei os acontecimentos que mergulharam o País numa das fases mais turbulentas de sua história.
E faço uma ressalva que considero necessária: não considero correto colocar o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco no mesmo saco dos generais que vieram depois dele.
Castelo Branco foi o primeiro presidente do regime militar, depois da deposição de João Goulart.
Mas quem colocou as tropas na estrada foi o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora.
Mourão, o general do charuto, marchou em direção ao Rio de Janeiro para derrubar Jango.
E não estava sozinho.
Tinha o apoio político de três governadores de enorme peso: Magalhães Pinto, de Minas Gerais; Carlos Lacerda, da Guanabara; e Ademar de Barros, de São Paulo.
E aqui começa a parte da história que muita gente prefere esquecer.
Eles eram governadores civis. Tinham mandato. Tinham poder político. E participaram da articulação que derrubou um presidente constitucional.
Não eram generais de quartel.
Eram governadores.
Tinham pretensões presidenciais.
E nenhum deles ignorava que a queda de Jango poderia abrir a porta do Palácio do Planalto.
A Guerra Fria, o medo do avanço do comunismo e a influência dos Estados Unidos faziam parte daquele cenário. A Revolução Cubana de 1959 havia mudado completamente o equilíbrio político das Américas.
Mas uma coisa é explicar o contexto.
Outra é justificar a ruptura.
Jango podia ser ruim. Podia ser impopular. Podia ter ligações com sindicatos e setores da esquerda. Podia cometer todos os erros políticos que seus adversários apontavam.
Mas havia uma solução para isso:
a eleição.
Não a deposição.
Castelo Branco assumiu depois da ruptura. Seu governo foi autoritário e não pode ser confundido com uma democracia plena. Houve cassações, restrições políticas e violações de direitos.
Mas também é preciso reconhecer uma diferença fundamental entre Castelo Branco e o que viria depois.
Em 1967, ele deixou o poder.
Seu sucessor foi o general Artur da Costa e Silva.
E foi durante seu governo que veio o AI-5, em 1968.
Aí, sim, o regime entrou numa fase muito mais radical de exceção, com a ampliação dos poderes do Executivo, suspensão de garantias e intensificação da repressão política.
Por isso, chamar todo o período de 1964 a 1985 de uma coisa só é tão cômodo quanto historicamente pobre.
Houve diferentes governos.
Diferentes momentos.
Diferentes graus de repressão.
E diferentes responsabilidades.
Se vamos retirar dos logradouros públicos os nomes de quem contribuiu para a ruptura democrática, então é preciso ter coragem para olhar também para os civis que ajudaram a produzi-la.
Magalhães Pinto. Carlos Lacerda. Ademar de Barros. Onde estão as homenagens públicas a eles? E, se ainda existem, por que deveriam permanecer?
A História não pode funcionar como um tribunal seletivo.
Não é justo retirar apenas o nome de quem assumiu o poder depois da ruptura e preservar a memória daqueles que ajudaram a abrir caminho para ela.
Castelo Branco pode e deve ser julgado pelos seus atos.
Mas os governadores que conspiraram pela queda de Jango também precisam ser julgados pela História. Porque golpe não se faz apenas com tanques. Às vezes, começa num gabinete de governador. E talvez esta seja a parte mais incômoda de 1964: alguns dos homens que ajudaram a derrubar a democracia não usavam farda.
