O EXÉRCITO NÃO QUERIA INTERVIR EM 1964

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Da esquerda para a direita: o governador de MG, Magalhães Pinto, o comandante da 4a Região Militar, Mourão Filho, e o general Carlos Luiz Guedes, chefe da Infantaria divisionária da 4a Região Militar. Foto/Internet

O EXÉRCITO NÃO QUERIA INTERVIR EM 1964
Sempre fiz bom uso dos meus dois ouvidos. E, durante muitos anos, escutei de militares que viveram aqueles acontecimentos uma versão de 1964 bem diferente daquela que, muitas vezes, chega às novas gerações.
Segundo esses relatos, o Exército não queria intervir para derrubar João Goulart. Ao contrário: havia setores importantes das Forças Armadas comprometidos com a manutenção da ordem institucional e da governabilidade.
As forças legalistas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro estariam alinhadas ao então ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, numa tentativa de preservar a cadeia de comando e evitar um confronto armado.
Até que o general Olimpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora, decidiu antecipar os acontecimentos.
Na madrugada de 31 de março de 1964, Mourão colocou suas tropas em marcha em direção ao Rio de Janeiro, com o objetivo de derrubar o governo de João Goulart.
Foi aí que, segundo o depoimento que ouvi do coronel Kurt Pessek, por exemplo, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e ex-membro do Gabinete Militar de Geisel, o jogo virou.
Ele me contou:
“Quando as tropas do 1º Exército encontraram as do 4º, na ponte do Rio Paraibuna, divisa dos dois Estados, já no final do dia, 31 de março, ao invés do confronto, resolveram fazer contas sobre o melhor a fazer. Aí se uniram. Foi isso.”
Segundo Pessek, não houve confronto entre as tropas. A resistência ao avanço de Mourão acabou se desfazendo diante da expectativa de desão de outras unidades militares ao movimento.
As tropas marcharam para o Rio quando a situação política se deteriorou rapidamente e ficou evidente que o governo de Jango perdera o controle da cadeia de comando militar.
A notícia vinda do Rio na tarde do dia seguinte,1° de abril, era de que Jango fugira para um local incerto e não sabido. O que arrefeceu os ânimos das tropas legalistas de tentar proteger o presidente.
As tropas mineiras chegaram pela avenida Brasil e foram festejada pelo governador Carlos Lacerda que cedeu o Maracanã para acamparem. Lacerda estava entricheirado no Catete, sob proteção da Polícia Militar.
“Não houve sequer um disparo. As barricadas feitas em torno do Palácio das Laranjeiras pelas tropas legalistas foram desfeitas pela própria resistência, uma a uma, até desobstruir todos os quarteirões”, explicou Pessek.
O coronel também relatou que o general Humberto de Alencar Castelo Branco, então chefe do Estado-Maior do Exército, tomou conhecimento de véspera das intenções de Mourão Filho e entrou em contato com o general Amauri Kruel, comandante do 2º Exército, em São Paulo.
Segundo esse relato, Kruel falou com Castelo Branco que também não queria “entrar nesta loucura de Mourão”.
Pessek era um oficial muito bem informado. Foi autor de vários livros e responsável pelo plano de fuga secreto elaborado para garantir a posse de Tancredo Neves, em 1985, caso ele fosse impedido disso em um eventual “golpe do golpe”.
Se essa versão que ele deu da atuação do Exército em 1964 corresponde integralmente aos fatos — e ela bate com as que ouvi e li de outras fontes de dentro dos quartéis —, há uma pergunta que não pode ser ignorada:
O que poderia fazer o Exército depois que a cadeia de comando havia sido rompida, o presidente estava fora do controle político da situação e parte significativa das tropas já havia aderido ao movimento?
A partir daí, a intervenção militar deixou de ser apenas uma iniciativa de Mourão Filho ou um golpe deliberado do alto comando do Exército e passou a ser uma realidade política e militar movida pelas circunstâncias de momento.
Mas outra pergunta permanece:
Por que Mourão Filho decidiu queimar etapas?
Que garantia tinha Popye, apelido do general e que deu nome à operação rumo ao Rio, de que ele não seria punido por desafiar a hierarquia militar e iniciar, por conta própria, uma marcha contra o governo federal?
A resposta, segundo os relatos que ouvi, passa também pela política.
O governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, teria assegurado proteção política ao general. E Magalhães não estava sozinho.
Carlos Lacerda, governador da Guanabara, e Ademar de Barros, governador de São Paulo, também se colocavam frontalmente contra Jango e mantinham suas forças de segurança em estado de prontidão.
Cimo escrevi na postagem anterior, os três tinham pretensões presidenciais. Ou seja: por trás da movimentação dos quartéis havia também uma disputa pelo poder político do Brasil.
É preciso lembrar que 1964 não pode ser explicado por uma única versão. Houve crise institucional, radicalização política, mobilização social, disputa dentro das próprias Forças Armadas e articulação entre setores civis e militares.
Mas uma coisa me chama particularmente a atenção: o movimento que derrubou João Goulart não nasceu, necessariamente, de um plano único, linear e perfeitamente organizado para implantar uma ditadura.
Ele também foi resultado de uma sucessão de decisões, rupturas, adesões e circunstâncias que, em poucos dias, mudaram completamente o destino do país.
Mourão marchou.
Os governadores apoiaram.
As tropas aderiram.
Jango deixou Brasília e, posteriormente, o país.
E o Brasil entrou em um período de 21 anos de governo militar.
É essa história — com seus personagens, interesses, contradições, documentos, testemunhos e diferentes interpretações — que precisa ser contada sem paixão ideológica e sem medo da verdade.
Porque História não é patrimônio da esquerda nem da direita.
História pertence aos fatos.
E quem viveu, quem ouviu e quem pesquisou tem o dever de contar — deixando claro, sempre, onde terminam os fatos documentados e começam as memórias e interpretações de quem esteve lá.
Simples assim!

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