Geisel e Figueiredo foram os dois últimos generais-presidentes do Brasil e nenhum deles teve filhos no governo ou na política. Foto/Reprodução

Uma das maiores deformações da política brasileira é a transformação da República em patrimônio de famílias. O poder muda de mãos, mas os sobrenomes permanecem. Filhos, esposas, irmãos, cunhados e outros parentes passam a gravitar em torno do Estado como se cargos públicos fossem parte de uma herança.
Ao observar esse cenário, volto os olhos para a história e encontro um contraste que considero digno de reflexão.
Durante o regime militar, período que sempre critiquei por sua supressão das liberdades democráticas, não me recordo de filhos dos cinco generais-presidentes ocupando cargos políticos relevantes por influência dos pais ou sendo preparados para sucedê-los no poder.
O marechal Castelo Branco teve dois filhos. Nenhum seguiu carreira política.
O general Costa e Silva teve um filho, coronel e engenheiro, que construiu sua trajetória profissional na Embratel, sem notoriedade por favorecimento decorrente do parentesco com o presidente.
O general Emílio Garrastazu Médici teve três filhos, além de uma filha adotiva. Nenhum ingressou na política ou se destacou como beneficiário do poder exercido pelo pai.
O general Ernesto Geisel teve dois filhos. O rapaz morreu ainda adolescente em um acidente ferroviário. A filha seguiu carreira como antropóloga, sem registros públicos de ascensão política vinculada ao sobrenome.
O general João Figueiredo, último presidente do ciclo militar, também não lançou os filhos na política nem os levou para o governo.
Seu neto, Paulo Figueiredo, jornalista e influenciador, tornou-se figura conhecida por sua proximidade com o bolsonarismo e por problemas com a Justiça brasileira. É um episódio posterior, que não se confunde com a atuação do avô na Presidência.
Faço questão de deixar uma posição clara: continuo rejeitando qualquer regime ditatorial. A ausência de eleições livres, a censura e as violações de direitos humanos são incompatíveis com a democracia.
Mas reconhecer esses fatos não impede outra constatação: a política brasileira, especialmente após a redemocratização, passou a conviver com uma crescente naturalização do parentesco como instrumento de poder.
Em muitos casos, famílias inteiras passaram a ocupar espaços na administração pública e nos mandatos eletivos, alimentando uma cultura patrimonialista que enfraquece a República.
Governar não é transferir poder aos filhos. A Presidência da República não deve ser um legado familiar, nem o Estado uma empresa de parentes. Em uma verdadeira República, o cargo pertence ao povo. Nunca à família de quem o ocupa.

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