DA FARDA COM RESPINGOS DE SANGUE AO TERNO SUJO DA NOVA REPÚBLICA

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Sarney com o presidente Figueiredo às vésperas da votação das Diretas já, em 1983. Foto/Reprodução/Internet

Se a corrupção fosse uma doença, o diagnóstico seria de um câncer em estado terminal, tamanho é o estrago causado ao País desde a tão sonhada redemocratização.
Quem viveu a transição do regime militar para o civil, a partir da distensão política liderada pelo general-presidente Ernesto Geisel (1974-1979), sabe como a farda sangrava e o terno fedia em Brasília.
A Nova República, inaugurada no governo de José Sarney (1985-1990), foi marcada por inflação galopante, sucessivos fracassos econômicos e pela crescente dependência do Executivo em relação a uma base governista no Congresso.
Os Planos Cruzado I e II frearam o setor produtivo ao congelar preços e estimular aplicações financeiras de curtíssimo prazo, como o overnight, que retiravam recursos da economia real para render nos bancos.
O consumo reprimido, aliado à escassez de produtos essenciais, levou o País ao descontrole econômico, com inflação elevada e perda de confiança na moeda. Vivi essa época cobrindo o Congresso Nacional.
No início, era uma euforia contagiante.
Logo após a tumultuada posse de Sarney, as luzes dos ministérios permaneciam acesas madrugada adentro. Era a demonstração, cuidadosamente encenada, de um governo civil de mangas arregaçadas, com o primeiro escalão de gravata dando as ordens enquanto a farda verde-oliva se recolhia ao papel institucional.
Os primeiros sinais da corrupção apareceram com a frouxidão na fiscalização dos gastos públicos. O exemplo vinha do próprio Congresso, onde privilégios e extravagâncias se multiplicavam.
Era a proliferação de benefícios como jetons, auxílio-paletó, auxílio-moradia, passagens aéreas, cotas praticamente ilimitadas para gráficas, xerox, telefonemas e uma infinidade de outras mordomias.
A ostentação era tanta que carros oficiais luxuosos, com bandeirinhas, eram colocados à disposição de líderes partidários e integrantes da Mesa Diretora, que circulavam pelo Eixo Monumental como símbolo de poder.
Começava, assim, a era da gastança, do desperdício, da ostentação e da corrupção. O batismo desse período viria com a manipulação do Orçamento da União, escândalo que deu origem à CPI dos Anões do Orçamento.
Esta CPI foi instalada em 1993 durante o governo de Itamar Franco, embora as irregularidades investigadas tivessem ocorrido em anos anteriores, incluindo o período do governo Collor.
Os registros históricos mais relevantes da corrupção no País são estes, pelo menos é o que está guardado na minha memória de um repórter que viveu intensamente este período até os dias de hoje.

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