A AULA DE ECONOMIA DO VELHO NICO (e a burrice dos políticos em Brasilia)
Antônio Rodrigues Milagres foi um antigo comerciante de São Miguel do Anta, dono da tradicional Padaria Santa Cruz, a mais antiga da cidade, extinta no início deste século depois de passar pelas mãos do filho Sebastião e o neto José Eudes. Foto modificada.
O sucesso da CazéTV ensina uma lição que vai muito além da comunicação. Mostra que é possível oferecer algo gratuitamente, conquistar um público gigantesco e transformar audiência em faturamento. O lucro deixa de estar na margem de cada unidade vendida e passa a estar no volume.
Guardadas as devidas proporções, a lógica poderia inspirar governos e empresas. Menos impostos, preços menores e maior consumo. Com mais gente comprando, o empresário vende mais, o governo arrecada sobre um volume maior de operações e o consumidor recupera parte do seu poder de compra. Em tese, todos ganham.
O Brasil, porém, insiste no caminho inverso. Tributos elevados pressionam os preços, os preços afastam os consumidores, as vendas caem, empresas encolhem e famílias recorrem ao crédito para fechar as contas do mês. No fim da cadeia, o trabalhador paga caro pelos produtos, pelos impostos e pelos juros.
A consequência é conhecida: cresce a inadimplência, aumenta a sonegação, os bancos elevam os juros para compensar o risco e o consumo cai ainda mais. É um círculo vicioso que sufoca a economia.
Será que nossos governantes não percebem isso? Ou será que preferem administrar as consequências em vez de atacar as causas?
Quando penso nesse assunto, volto à infância na minha São Miguel do Anta-MG da década de 1950.
Meu avô materno, Nico, era dono de uma pequena padaria. Certo dia, vendeu cinco roscas na promoção para um freguês e anotou a compra na velha caderneta.
Um conhecido, que observava a cena, não resistiu:
— Uai, Nico, você vende barato e ainda fiado? Sem saber quando vai receber? Isso é prejuízo. Tem que cobrar juros.
Nico tragou o fumo de rolo, soltou lentamente a fumaça e respondeu com a simplicidade dos que aprenderam na prática:
— Prejuízo é pensar desse jeito. Eu vendo tudo o que fabrico. Se cobrar caro, o freguês vai embora e minha padaria fecha, igual vai acontecer com a sua marcenaria. E, se eu cobrar juros, ele pega dinheiro emprestado com o Salim, paga juros para ele e acaba sem dinheiro para me pagar. Prefiro vender barato, receber direitinho e viver com tranquilidade.
Meu avô jamais estudou Economia. Não conhecia teorias nem fórmulas acadêmicas. Mas entendia, como poucos, que o lucro nasce da confiança do cliente e da circulação do dinheiro.
Às vezes, a velha caderneta de uma padaria ensina mais sobre economia do que muitos gabinetes climatizados de Brasília.
