A EXECUÇÃO EM BRASÍLIA DO REPÓRTER MÁRIO EUGÊNIO NO FINAL DA DITADURA MILITAR

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O repórter foi surpreendido por trás pelo pistoleiro que desferiu quatro tiros de calibre 38 em sua cabeça e um de misericórdia de calibre 12 na nuca. Foto/Correio Braziliense

Em abril de 1984, o tenente Ricardo Avelino, chefe do Pelotão de Investigações Criminais do Exército (PIC), aquartelado no Distrito Federal, teve seu Passat furtado.

Revoltado, o oficial foi atrás do inspetor Iracildo de Oliveira, da Delegacia Especializada de Furtos e Roubos de Veículos (DFRV), para buscar informações.

O inspetor, um velho colaborador do PIC, levou-o a uma cela onde estava o preso Jerônimo Lamas da Silva, o Carioca.

Os militares queriam o endereço de Paulo Fernandes dos Santos, um ex-PM que virou puxador. Localizado, Fernandes revelou que o carro do oficial estava numa zona rural de Luziania (GO).

O comboio de militares do PIC e de agentes da PC seguiu em direção ao sítio Três Vendas, onde os policiais invadiram um barraco e mataram por engano o chacareiro João Paulo Mattos, que nada tinha a ver com o caso.

Ao certificar o erro, o comboio de policiais debandou em disparada de volta a Brasília. Na passagem pelo Rio São Bartolomeu, na estrada de Unai, resolveram matar as testemunhas.

Os corpos foram jogados no rio presos a uma roda sobressalente da viatura da Polícia Civil. Dias depois, eles boiaram pela frouxidão da corda.

O repórter policial do Correio Braziliense Mário Eugênio — que comandava ainda um programa na Rádio Planalto, o Gogó das Sete — botou a boca no trombone.

Tiros de 9mm na cabeça e uma roda com a abreviatura da Delegacia Especializada de Furtos e Roubo de Veículos do DF. Logo, o alvo eram policiais da repartção.

O inspetor Iracildo rebateu a acusação, exigindo nomes. Marão, como era conhecido o repórter, prometeu revelar tão logo soubesse.

O repórter e o policial eram velhos conhecidos. Acuado, Iracildo acabou desviando a atenção de Marão para um eventual envolvimento de elementos do Exército no caso.

O crime ganhou repercussão, colocando o secretário de Segurança Pública do DF, coronel do Exército Lauro Melchiades Rieth, em má situação.

Até porque, segundo o repórter, havia claro indícios da existência de um Esquadrão da Morte atuando no DF, com envolvimento de homens do Exercito e da Polícia Civil.

O cerco fechou. O secretário retaliou o repórter, proibindo-o de entrar nas repartições policiais. Chegou inclusive a mandar desarmá-lo na redação do jornal.

O argumento era de que a arma que ele portava, um revólver de fabricação espanhola, calçava projéteis de calibre 9mm, privativos das Forças Armadas.

Marão tinha porte da arma. Mas de nada valeu seus argumentos de que o revólver era para a sua defesa pessoal.

O episódio recrudesceu ainda mais a relação do jornalista com o secretário e os seus “amigos” da polícia que passaram a tramar a sua morte às escondidas.

A EMBOSCADA

O grupo envolvido na dupla execução na ponte do Rio São Bartolomeu traçou um plano para matar o repórter numa emboscada durante um churrasco na casa de Iracildo.

No dia 11 de novembro saíram em dois veículos para executar o plano. Um deles ficou de campana no início da noite nas proximidades do Palácio do Buriti, de frente para a redação do Correio Braziliense.

Um veículo do Grupo de Operações Especiais (GOE) da Polícia Civil passou por eles e se cumprimentaram. Mas mesmo assim decidiram não abortar o plano.

Outro veículo com o restante do grupo passou a rondar o prédio da Rádio Planalto, para onde o repórter ia após sair do jornal para gravar seu programa do dia seguinte.

Eles seguiram o alvo num Fusca até a emissora, esperando-o terminar a gravação. Quando o repórter botou a mão na maçaneta do seu carro, o pistoleiro saiu detrás de um arbusto e efetuou cinco disparos na sua cabeça.

Os disparos causaram quatro buracos no alto da cabeça, de calibre 38, e um na nuca, de calibre 12, que rompeu a coluna vertebral. Um funcionário da rádio disse que viu o espectro de um homem de capa,chapéu e uma arma comprida fugindo.

O crime ocorreu num domingo, às 23h45m, a 300 metros do Carlton Hotel, onde estava hospedado o secretário de Estado norte-americano George Shultz, com forte esquema de segurança.

O episódio teve grande repercussão também fora do País, pela presença de repórteres de agências internacionais que faziam a cobertura da visita de Shultz a Brasília.

Foram seis meses de intensa investigação, sem qualquer pista dos criminosos. Até que uma carta anônima endereçada ao advogado Aidano Faria, contratado pelo Correio Braziliense, deu as coordenadas do crime.

A carta dizia que uma viatura do GOE interceptou momentos antes da execução do repórter um Chevette perto do Palácio do Buriti cheio de policiais.

No carro, de placa fria (era produto de furto), estariam o sargento Nazareno Mortari, o cabo Aurelino, o inspetor Iracildo e o agente Loyola.

As investigações avançaram até descobrir o nome dos ocupantes do Fusca utilizado no crime. Eram eles Divino José de Mattos, o Divino 45 (autor dos disparos), e os cabos David Antônio do Couto e Perkoski.

Todos foram presos. O cabo Couto disse que o crime contou com a colaboração da 2a Seção do Comando Militar do Planalto que chegou a tramar a morte do deputado Ulysses Guimarães durante as Diretas Já.

O secretário Lauro Rieth,apontado como mandante, não foi levado a julgamento “por ausência de provas”.

A execução do repórter é relatada no livro Distrto Zero (Mazza Edições: 2000), de minha autoria. O título foi inspirado no nome da Editoria de Polícia do Correio Braziliense dado por Mário Eugênio.

Em 2008, o Caso Mário Eugênio foi destaque da revista comemorativa dos 60 anos do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), numa entrevista que dei ao jornalista Thales Alves exclusivamente para a publicação.

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