O ATENTADO A BOMBA CONTRA EMBAIXADA DOS EUA EM BRASÍLIA CENSURADO PELOS GENERAIS E O PLANO DE FUGA DE TANCREDO NEVES

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O atentado ocorreu em 19 de novembro de 1984, já no final do regime militar, e foi abafado a pedido do governo dos Estados Unidos. Foto/Reprodução

Em 1986, eu e o repórter-fotográfico Nélio Rodrigues—hoje um dos mais conceituados de BH, dono do Estúdio Decolar— fazíamos uma reportagem sobre incêndios fraudulentos em Brasília para o recebimento do seguro.

Era a “Máfia do Fogo”. Uma série de reportagens para o jornal Última Hora, revelando o submundo dos golpes em companhias seguradoras ou mesmo para obter outro imóvel funcional. O que era muito comum na Capital Federal.

Numa incursão à Seção de Perícias, Incêndios e Explosivos do Corpo de Bombeiros para inspecionar objetos utilizados nestas fraudes, deparamos na Sala de Estudos com um envelope pardo Nº 2083, escrito: “Laudo 244/84 -Embaixada dos Estados Unidos – Positivo nitrito. 19/12/84”.

Nitrito é uma substância utilizada para fabricar explosivos, bombas. Logo, havia um mistério a ser esclarecido. Nélio fotografou o envelope às escondidas (era proibido fotografar no local) e deixamos a repartição.

Já havia sido alertado sobre este atentado em outra ocasião, mas não dei importância à informação por entender que era impossível uma ocorrência desta natureza passar batido pela imprensa.

Após negar o fato, o diretor-técnico do Corpo de Bombeiros, coronel Henrique Silva Barbosa, decidiu confirmar a perícia no prédio da embaixada; foi uma explosão “não esclarecida”.

Ele revelou que seus oficiais faziam a perícia no prédio quando foram “expulsos” por autoridades norte-americanas que assumiram o caso.

“O que eles não sabiam é que nossos peritos haviam recolhido fragmentos de explosivos para análise em laboratório”, desabafou o coronel com uma ponta de vingança da verdade sobre a mentira.

A perícia foi feita pelo oficial-bombeiro Jorge Ferreira Filho, que constatou no laudo “ação direta”, ou seja, incêndio intencional com uso de explosivo.

Procurado pela nossa reportagem, o ex-diretor do Departamento de Polícia Federal, delegado Moacir Coelho, negou ter conhecimento do fato. O mesmo ocorrendo com o embaixador norte-americano, Diego Ascêncio, que “debochou” da fala do coronel, o que levou o oficial a confirmar o atentado para a nossa reportagem.

A Secretaria de Segurança Pública do DF não quis comentar o assunto.

Tudo que sabíamos de bastidores sobre o atentado é que ele ocorreu logo após um movimento mundial de protesto contra a empresa norte-americana Union Carbide, considerada omissa no vazamento do “gás mortífero” em sua fábrica na localidade indiana de Bophal, matando milhares de pessoas. E que o embaixador da Índia no Brasil, Shial Sunder Nath, fora removido para Nova Dhelhi dias após o atentado em Brasília.

Outro indício forte de que estávamos no caminho certo sobre o atentado é que o prédio da Embaixada fora fechado por alguns dias por falta de energia elétrica, como nos revelou a repórter Marlene Galiarde, responsável pela cobertura do Corpo Diplomático.

O agente da Polícia Federal Carlos Manhães confirmou em off o atendado que fora abafado por ordem do ministro da Justiça IIbrahim Abi-Ackel. O governo norte-americano havia sofrido de véspera um atentado na Embaixada de Beirute “e temia o efeito dominó”.

Demos a notícia, mas a imprensa continuou calada, porque esta era a ordem de Washington. Pouco tempo depois o embaixador Diego Ascêncio foi substituído e a nossa fonte na PF, embora preservada, foi transferida para Rondônia.

O editor da Veja em Brasília, Etevaldo Dias, pediu detalhes do ocorrido para a publicação da notícia, mas nem no Radar saiu.

O.PLANO B DE TANCREDO

O presidente do jornal, coronel da reserva do Exército Kurt Pesseg, ignorou a pressão do Planalto e bancou a notícia. Até porque, era um democrata ligado a Tancredo Neves e dissidente da linha dura do Exército.

Ele fez apenas uma ressalva: “se for verdade o que vocês estão dizendo, vamos continuar publicando; se for mentira, demito os dois”.

E não nos demitiu, mesmo pressionado a fazê-lo por ordem não acatada do Exército.

Pesseg foi o responsável pela elaboração de um Plano B de fuga de Tancredo Neves, em caso de algum atentado para impedir a sua posse pelos militares insatisfeitos com a passagem do poder para os civis, como se comentava em Brasília.

O plano consistia em resgatar Tancredo, levá-lo para o gabinete do senador Severo Gomes, que era piloto, e fugir com ele de avião para o Rio Grande do Sul, onde seria entregue ao general Leônidas Pires, à época comandante do III Exército em Porto Alegre.

O general era um grande aliado de Tancredo e da democracia, chegando inclusive a ser citado para suceder Figueiredo na transição do regime militar para o civil. Foi escolhido por Tancredo para ser o seu ministro do Exército, cargo que ocupou no Governo Sarney.

Já Severo Gomes foi ministro nos governos de Castelo Branco e Geisel. Morreu com a mulher Ana no acidente de helicóptero que matou Ullysses Guimarães e esposa em 1992, quando retornavam de Angara dos Reis.

NOTA: O Comando Militar do Planalto, chefiado pelo general Newton Cruz à época das Diretas Já, tinha planos para matar Ullysses Guimarães. Foi o que disse à justiça o cabo do Exército David Antônio do Couto, um dos envolvidos na execução do repórter do Correio Braziliense, Mário Eugênio, em novembro de 1984.

Como se vê, tem muitas pontas soltas nos corredores sombrios de Brasília. Era assim antes e continua este novelo hoje. O crime — assim como a corrupção na política– é atemporal. Ou o denunciamos com isenção ou convivemos com ele, não há outra opção.

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