NEWTON CRUZ, O GENERAL DE LINHA DURA E LÍNGUA SOLTA
Ninguém mais do que o general Newton Cruz arrumou tanta confusão na ditadura. Chegou a empilhar processos na justiça acusado de crimes de tortura,atentado, assassinato, mas, no frigir dos ovos, saiu ileso de todas as acusações.
“Cruz tem o corpo fechado,só pode”, exclamou um dos meus editores, após o arquivamento da denúncia-crime de que ele mandava jogar bombas nos comícios das Diretas Já. “Sou inocente, não sei de nada”, comemorou.
Era “queixo duro”, não entregava ninguém na justiça e em suas entrevistas na imprensa, por mais que fosse apertado pelos repórteres ávidos por um vacilo do entrevistado que não fugia da raia.
Talvez isso o tenha livrado de tanta encrena que arrumou na vida. Chegou inclusive a agarrar um jornalista pelo colarinho após a vitória dos generais sobre a Emenda Dante de Oliveira no Congresso, em 1984.
Cruz não levava desaforo para casa.
Ele era tão atentado, que acusou num programa de televisão em 2000 o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, de tê-lo procurado em 1985 para “uma acão forçada” contra Tancredo Neves. O ex-governador o processou por crime de danos morais.
A Justiça negou a indenização, alegando que o general gravou a conversa que era verdadeira. Segundo Cruz, ele interpretou a proposta como um pedido para matar Tancredo “como se eu fosse um criminoso”.
As encrencas:
Cabo David Antônio do Couto, do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) do Exército, relatou na Justiça do DF em 1985 que Newton Cruz planejou matar Ullysses Guimarães durante as Diretas Já em 1984.
Não deu em nada. “Talvez bombas presenciais para escaramuçar barderneiros, mas nem isso ordenei”, ele se defendeu.
O dançarino Cláudio Werner Polilla, o Jiló. afirmou que o general participou da execução do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982.
Também não deu em nada.”Jiló?! Conheço não. O que conheço a gente come é no prato”, respondeu, irônico. Jiló era homossexual.
O general foi denunciado na Justiça pela participação no atentado do Riocentro, em 1981. Ele negou qualquer envolvimento no atentado e não quis citar o nome dos envolvidos.
A Procuradoria-Geral da Justiça Militar o processou por falso testemunho ao afirmar que não sabia quem participou do crime, mas o processo foi encerrado em 2001 com o seu arquivamento pelo STF.
Escapou de mais essa. Nada provado.”Tinha muita gente nossa na rua, eu não tinha controle de tudo; investiguem e me contem o que ocorreu”, zombou dos repórteres após mais esta vitória na justiça.
A execução do repórter Mário Eugênio em 1984 teria sido planejada pela 2a Seção do Comando Militar do Planalto, chefiado por Newton Cruz, segundo denúncia do cabo Couto, um dos condenados pela morte do repórter.
Nem investigado foi pelo crime.”Sei de nada, e não me pergunte mais sobre isso”.
O QUE APUREI
O que apurei e posso falar de tudo isso é o seguinte:
No caso da execução de Alexandre Baumgarten, o que sei é que o general encomendou ao ex-agente do DOI-CODI em Belo Horizonte, Afonso de Araújo Paulino, uma investigação sobre se o jornalista estava ou não mentindo sobre a tiragem da revista O Cruzeiro, financiada pela repressão.
Afonso provou a farsa ao conferir o número de bobinas de papel consumidas e comunicou o chefe do SNI, Otávio de Medeiros, seu amigo. Isso quem me disse foi o próprio Afonso, o Minhoca, como era mais conhecido.
Acompanhei em Brasília a acariação de Polila e Newton Cruz no Complexo da Polícia Civil. Polila parecia muito firme em suas acusações.
Ele disse que viu uma Veraneio com um homem de cabelos grisalhos dentro quando o jornalista, sua mulher e um barqueiro foram sequestrado na Praça XV na madrugada do dia 13 de outubro de 1982.
E que este homem ele reconheceu pela televisão como sendo o general Newton Cruz, que ele não conhecia antes. Foi o que disse ao delegado Ivan Vasques, responsável pelo inquérito.
O depoimento de Cabo Couto envolvendo o Comando Militar do Planalto na morte de Mário Eugênio é outro mistério. O que apurei é que o secretário de Segurança Pública do DF, coronel do Exército Lauro Rieth, foi o mandante intelectual do crime.
Afirmo Isso no meu livro DISTRITO ZERO (Mazza Edições:2000). Mas ele não foi levado a julgamento, infelizmente. Outra: o pistoleiro Divino 45 era ligado à Agência Central do SNI, à época chefiada por Newton Cruz, e chegou a fazer parte da segurança de Figueiredo.
Perguntado por mim sobre a relação de Divino 45 com o SNI, durante uma troca de turno do Batalhão de Guardas da Presidência (BGP) num domingo, Newton Cruz respondeu irônico:
-Não conheço este moço, já disse, não usamos este calibre aqui; ou é 9mm ou bomba.
Quem mandou fazer a pergunta foi o diretor-presidente do jornal Última Hora, Kurt Pesseg, um coronel da reserva, ex-combatente da Segunda Guerra que sabia, conforme me garantiu, que Divino 45 “fazia serviços ” para o SNI.
A única serventia deste atirador de elite era matar por encomenda– era o que andavam falando em Brasília. logo, se trabalhou para Newton Cruz, foi para prestar algum serviço sujo.
Pesseg riu da resposta do general. “Quanto ao calibre, ele tem toda razão”.
Assim era Newton Cruz: polêmico, falastrão, irônico, língua afiada e, como disse o meu colega editor, “de corpo fechado”
Morreu em 2022 aos 97 anos, sem nunca ter sido preso ou condenado por crime algum.
LEGENDA: O presidente Figueiredo em reunião da alta cúpula do SNI, com os generais Medeiro e Newton Cruz, em.um clima tenso já no final da ditadura.
