O GOLPE DE 1964 E A FUGA DE JOÃO GOULART ACOMPANHADOS PELO RÁDIO DO RABO QUENTE
30 de março de 1964. Seria uma segunda-feira como outra qualquer, mas não foi. A edição das 8h do Repórter Esso assustou o meu avô materno, Antônio Rodrigues Milagres, o Nico, que bateu forte a bengala na mesa me chamando:
-Aumenta o volume, rápido – ordenou, com os olhos arregalado.
Pai Nico (era o meu pai de criação), teve uma das pernas amputada e desde então passou a depender de mim e de minha avó Ernestina para tudo. Todo dia eu tinha que sintonizar o rádio valvulado Philips (o do rabo quente) na Rádio Globo para ele ouvir a edição matinal do Repórter Esso.
Naquele dia não foi diferente. Mas assim que Heron Domingues entrou com a notícia do Rio repercutindo o histórico discurso do presidente João Goulart no Automóvel Clube, ele percebeu que a coisa estava ficando séria, caminhando para uma revolução.
A tensão política provocada pelo discurso de Jango e a insubordinação militar pipocando por todos os lados, obrigaram a emissora a alterar a sua programação com os bordões “o primeiro a dar as últimas” e “testemunha ocular da história ”
A notícia era que o comandante da 4ª Região Militar aquartelada em Juiz de Fora, general Olímpio Mourão Filho, e o governador de Minas,Magalhães Pinto, se declararam rebelados, não mais obedecendo ao poder central.
Aliás, um dia antes vi o soldado do destacamento da minha São Miguel do Anta-MG, se despedindo da mulher na casa perto da padaria de meu avô com fardamento de guerra, capacete de combate e dois fuzis nas costas.
Entrou num Jeep e foi para Viçosa, onde se juntaria ao restante da topa rumo a Juiz de Fora para a “Operação Popeye” que marcharia, com elementos da Polícia Militar, para o Rio, sob o comando do general Antônio Carlos da Silva Murici.
A Notícia era essa. Dizia ainda que o governador do Rio, Carlos Lacerda, estava no Palácio da Guanabara desde domingo, quando foi acordado na madrugada de segunda-feira com a notícia vindo de Minas.
Lacerda montou várias linhas de defesa do Palácio, com caminhões pesados do Departamento de Limpeza Urbana atravessados nas ruas Pinheiro Machado, Paissandu, Ipiranga, Coelho Neto e Farani, formam barricadas de isolamento do Guanabara.
As notícias do Rio, São Paulo e Minas pipocavam o dia inteiro sobre a mobilização das tropas fiéis ao presidente e as rebeldes. E eu, com apenas 13 anos, preso ao rádio por ordem de meu avô para virar o seletor conforme a microfonia.
Às vezes o som ficava distante, quase inaudível, aí ele falava: “mais para a esquerda… não… volta”, até obter um sinal que lhe permitisse entender o que estava acontecendo. Fui gostando da coisa. Era mais ou menos o que via nos filmes de guerra.
Certo é que a coisa estava pegando fogo no Rio, com aviões da FAB fazendo voos rasantes na cidade, blindados e demais carros de combate se deslocando de um lado para o outro e pouca notícia sobre a reação do presidente Goulart.
A informação era de que ele estava no Palácio das Laranjeiras, que foi residência oficial do ex-presidente Juscelino Kubitschek, e para onde se fechou com alguns ministros, sob a proteção das Forças Armadas, a esta altura, dividida.
Segundo meu avô, a Revolução era iminente, e que era para ninguém sair na rua. Muita gente na cidade havia votado em Jango, de certa forma até pela empatia de seu jingle de campanha que virou uma febre na época.
Mas tinham também os que não gostavam dele e o queriam deposto. O anticomunismo era forte especialmente nas cidades pequenas e na roça, onde se vendia a ideia de que comunista era coisa do capeta. “Muito perigoso”.
As notícias vindas de São Paulo davam conta de que o comandante do II Exército, Amauri Kruel, estava indeciso sobre se apoiava as tropas de Minas e os rebeldes do I Exército do Rio, comandado pelo General Armando Moraes Âncora.
-Adhemar de Barros (governador de São Paulo) está indeciso – disse meu avô a um amigo, entre um e outro pigarro provocado pelo cigarro de palha, com fumo de Ubá. Por sinal, picado e enrolado por mim, devido a um acidente que ele sofreu, com perda da mobilidade da mão direita.
Em resumo, eu era o operador do rádio e seu picador de fumo. Fora outras serventias, como balconiata da padaria e depois de sua pequena quitanda improvisada na sala da casa. E, de quebra, empurrador da cadeira de rodas de madeira.
Era uma cadeira comum, de madeira maciça com rodas nos pés. Uma engenhoca feita pelo amigo marceneiro Nenzinho Feijó, que dividia comigo a função de “radioescuta” do velho Nico. Quando meu avô se ausentava do rádio, alguém tinha que ficar escutando o noticiário para reportá-lo dos fatos.
Foi assim o dia todo, boa parte da noite, até o início de abril, com a fuga de Jango, dia 31, depois que o general Kruel propôs a ele, pelo telefone, romper com a esquerda sindicalista em troca de apoio. Jango não aceitou, alegando fidelidade à base.
A Revolução, como previa meu avô, parecia ser inevitável, não fosse a decisão do presidente de preferir a fuga “ao derramamento de sangue”, conforme disse a um de seus ministros minutos antes de embarcar de avião para Brasília e depois para Porto Alegre.
Segundo o Repórter Esso, Jango chegou a tentar se manter no poder numa resistência legalista, mas não encontrou forças suficientes para isso. Até porque as tropas de São Paulo, Rio e Minas já haviam se aliados contra o governo e ele não queria ver sangue.
Refugiou-se em sua fazenda em São Borja e no dia 4 de abri foi com a família para o asilo forçado no Uruguai. Nunca mais voltou ao Brasil. O resto da história contamos depois
