A doença do pânico deixa marcas indeléveis no corpo e na alma das pessoas.

Início da 1970, já cansado de sofrer com a hoje conhecida doença do pânico,suas fobias e calmantes, decidi por fim a este martírio buscando socorro no Hospital Psiquiátrico Galba Veloso, em Belo Horizonte.
Tinha várias clínicas psiquiátricas espalhadas pela cidade, mas tudo muito caro. E minha intenção não era tomar remédio. Pelo contrário: queria é parar com eles. Curar a doença na marra.
O Galba era um Pronto Socorro Psiquiátrico com triagem de 72 horas. O paciente chegava surtado, tomava um “sossega leão”, voltava para casa ou era internado para avaliação do quadro clínico.
Dependedo do diagnóstico, eram encaminhado a algum hospital conveniado com a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG). Os casos mais graves iam para o Raul Soares.
Quanto a isso, eu estava tranquilo. Passei-me por “louco” na anaminese para “cair pra dentro”. Depois veria o que fazer. Poder-se-ia dizer que virei um doido conveniente em busca da cura dos malditos disturbios neurovegetativos.
É que,além de querer me livrar de remédios de forma compulsória, tinha também a curiosidade de conhecer como funcionava os hospitais psiquiátrico por dentro. Coisa de repórter. Ver pra crer e escrever.
Foram 72 horas de horror. Os “doidos” deixavam as torneiras abertas noite toda; uns falavam que eram o que nunca foram, outros que não eram o que eram; alguns surtavam, outros se recolhiam acuados. Enfim, uma doideira.
Fui levando os médicos na conversa com meias-verdades. Sem contrição. Era a chance de obter uma internação gratuita e estava disposto a enfrentar qualquer sacrifício para ficar livre dos fármacos.
No terceiro dia fui comunicado da transferência para o Hospital Espírita André Luiz. Uma instituição filantrópica voltada para a saúde mental. Era o mais humano da rede conveniada O médico entendeu direitinho o que eu queria.
O problema foi no transporte. Tivemos que dividir o pequeno espaço da ambulância com um defunto, para “aproveitar a corrida”. Na época os corpos podiam ser levados para o IML sem a necessidade do rabecão.
Primeiro foi a entrega do corpo. Depois a de dos pacientes numa clínica que não me lembro o nome,até a chegada ao André Luiz. O hospital tinha uma ampla área externa para recreação e uma ótima infraestrutura interna.
Nas galerias tinha de tudo: esquizofrênicos, dependentes químicos e alcoólicos, epiléticos, psicóticos e os que, como eu, queriam fugir de tudo (alguns,da própria família),inclusive dos remédios.
Modéstia à parte, acho que era o mais normal de todos.
Fiquei 45 dias internado e no soro. Na hora da medicação, escondia os comprimidos debaixo da língua e cospia-os no banheiro. Nas crises de abstinência, jogava água fria na cabeça e segurava a torneira com força para vencer a tremedeira.
Transpirava que nem tampa de cuscuz. Testemunhei, na espreita, os horrores dos eletrochoques (Eletroconvulsoterapia (ECT), conforme relatei em uma postagem anterior. Vivi intensamente o ambiente dos loucos, com grandes profissionais da saúde..
Um colega de enfermaria cantava baixinho o “Gloria,gloria aleluia” a noite toda. Outro ficava com o ouvido no assoalho “escutando nos trilhos o barulho do trem chegando”. Era telegrafista aposentado da RFFA, com sérios problemas neurológicos.
Tinha ainda os zumbis. A turma dos “impregnados”, de tão encharcados que estavam de remédios vagando pelos corredores noite adentro.
Havia até um campeão de xadrez que fez muito sucesso com o seu tabuleiro. Ganhava de todo mundo,até descobrir que era tudo no grito. Mal começava o jogo e ele gritava “xeque mate!”
Ele não sabia jogar e jogava com quem falava que sabia sem saber de nada. Quem descobriu a farsa foi um voluntário que entendia de xadrez e me contou a farsa.
“Deixa quieto, fala nada não que é pior”.
Participei de um jornal interno feito no mimeógrafo com poesias e outras preciosidades dos internos. Havia muito talento enrustido nos corredores sombrios do hospital e aprendi muita coisa com os malucos.
Sai do hospital curado e de certa forma mais compreensivo com as pessoas acometidas de algum sofrimento mental.
Classifico a doença mental como a pior do mundo. As feridas são invisíveis, principalmente as dos que sofrem de depressão.
O reconhecimento da doença costuma ser tardio, quando já não se pode fazer mais nada, a não ser abrir uma cova. Ou vê-los morrendo aos poucos.
O do “glória, glória, aleluia” noite adentro era um exemplo deste abandono. Pesava 38 quilos e tinha um olhar perdido no horizonte,. Um moço bonito que perdeu a vontade de viver.
Poucos parentes o visitavam.

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