O FIM TRÁGICO DO MEU TIO ERVÊ NO HOSPITAL COLÔNIA DE BARBACENA
Meu tio Ervê, mais novo do que papai, desapareceu do Hospital Colônia em Barbacena na década de 1970 e nunca mais foi visto.
“Ervê evadiu-se!”. Avisou a direção do hospital em um telegrama sucinto enviado ao meu avô Pedro da Silva, que caçou sem sucesso mais informações sobre o paradeiro do filho.
Meu tio sofria de esquizofrenia e alucinações psicóticas severas. O diagnóstico era este. Não havia cura e previsão de alta.
Dos irmãos, papai era o único que ele obedecia. Vivia em um cômodo trancado na fazenda, pela agressividade e a agitação que o levava a rasgar a roupa do corpo.
Quando via um de meus irmãos, ele falava desconexo o nome de papai. ” Zezé”, em
solilóquios e alucinações auditivas, andando de um lado para o outro.
Sem convívio social e respostas ao tratamento ambulatorial, o jeito foi a internação recomendada pelos psiquiatras. Até mesmo para a sua segurança e a da família.
Perdeu-se naquele holocausto. Um amontoado de pessoas vagando pelo pátio. Eram milhares, de todas as idades, sintomas e origens. Muitos morreram indigentes.
Outros evadiam-se e eram apedrejados na rua como loucos perigosos. E tinham os que, como o meu tio, sumiam para nunca mais ser encontrados.
Nem o hospital sabia direito o que ocorreu. Não havia testemunha da fuga, enfim, nenhuma anotação capaz de levar a uma pista qualquer.
Havia um cemitério no prédio, com relatos de mortes no pátio e sepultamento sem saber quem morreu. O hospital chegou a abrigar até 60 mil doentes, a maioria jogados no pátio.
O seu desaparecimento adoeceu o meu pai que às vezes o levava para casa, onde recebia cuidados de minha mãe enfermeira, numa tentativa inglória de recuperar o irmão.
O amor e o carinho da família são um santo remédio. Mas era impossível reverter o quadro clínico do tio. Ele teve que voltar para a casa do pai, já sem a mãe Inês, falecida em 1950.
O mistério de seu desaparecimento papai levou para a sepultura em 2006, aos 81 anos, com extremo sentimento de culpa.
“Mamãe me pediu para cuidar do Ervê em seu leito de morte”, se penitenciava papai clemente por não ter cumprido a ordem materna.
Após 115 anos, o Hospital Colônia foi fechado em definitivo no dia 25 de maio deste ano, com a transferência dos 14 pacientes remanescentes que viviam neste que foi o “Holocausto Brasileiro”.
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