AFONSO PAULINO LEVA PARA A SEPULTURA SEGREDOS DE UM TEMPO OBSCURO
Afonso Paulino foi dono do Jornal de Minas, que circulou em BH nos anos 1970 e 80, e duas vezes presidente do Atlético. Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press
A morte do empresário Afonso de Araújo Paulino, o Minhoca, hoje (8/5), remete a um dos períodos mais obscuros da imprensa mineira, pela ligação dele e de seu Jornal de Minas (ex-Diário Católico) com a repressão durante o regime militar.
Afonso, com quem tive uma relação turbulenta e ao mesmo tempo afetiva, pelo seu temperamento passional (gostava muito do meu irmão Antônio) e verde-oliva. Sempre que eu citava o seu envolvimento com a repressão, ele retorquia: “você não tem nada do Antônio, fdp”.
Foi assim quando o envolvi na “Máfia do Garimpo”, uma série de reportagem que fiz pelo jornal Estado de Minas no final dos anos 1990 e que foi finalista do Prêmio Esso, abordando o mercado negro de pedras preciosas.
No dia da audiência na CPI instalada na ALEMG, ele chegou sorrateiro de terno branco com dois brutamontes e, ao menor descuido meu, bateu com a mão pesada no ombro direito: “Você não perde a oportunidade de me colocar como torturador, né, fdp”, esbaforiu, com o inconfundível sotaque carioca.
Ele não me perdoava por ter acusado o seu jornal de envolvimento com a repressão no meu primeiro livro Distrito Zero (Mazza Edições: 2000). Afonso era, na década de 1970, ligado ao capitão do Exército Otávio de Medeiros, mais tarde general e chefe do SNI de 1978 a 1985.
Medeiros, com quem ele estudou na Escola de Cadetes em Barbacena, era chefe do CPOR em Belo Horizonte, e o convenceu a comprar o Diário Católico em 1972 e transforma-lo em um jornal a serviço do regime militar.
A compra foi facilitada pelo cardeal Dom Serafim, conselheiro junto com Afonso no Atlético, time do coração dos dois. Dídimo Paiva foi convidado para ser o editor-geral, não aceitou, aí chamaram o Euro Arantes, ex-Pasquim.
Tudo simulado. Na verdade era uma trama abafada para o bispo não desconfiar do verdadeiro propósito de Afonso e Medeiros. Veio o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979) com a promessa de abertura política para a devolução do País para o regime civil.
O jornal escancarou a sua verdadeira face, com Fernando Zuba de editor-geral e gosth writer de Afonso na coluna “Sem Reserva” que descia o cacete nos “comunistas” opositores do sistema. Fui repórter do jornal neste período, fazendo o dublê de espião.
Sabia de quase tudo que acontecia: torturas, bombas em bancas de jornais e no Sindicato dos Jornalistas reivindicadas pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Movimento de extrema direita composto por policiais civis truculento a serviço do jornal.
Padre sequestrado, apartamento de repórter “esquerdista” arrombado, repórter escorraçado e espancado, como ocorreu com o meu amigo Jairo Viana, com quem voltei a trabalhar anos depois no Jornal de Brasília.
Com o fim da ditadura, em 1985, Afonso Paulino colocou o comodato do prédio da Mitra Metropolitana — onde funcionava o jornal, na avenida Francisco Sales, Floresta– debaixo do braço e forçou o bispo a ajudar a elegê-lo presidente do Galo em dois mandatos.
Em troca, devolveu o prédio.
Por incrível que pareça, Afonso foi uma das minhas melhores fontes em Minas. No último encontro que tivemos, com a presença de meu irmão Antônio, ele chorou muito. Ele se dizia “quebrado” e fragilizado.
Me contou coisas antes deste encontro que, em respeito ao seu pedido em vida, resisto em não tornar público. Principalmente agora com a sua morte. Segredos de um tempo obscuro que vão para debaixo da terra.