O “TESTE DOS PADRES” QUE TIROU AURELIANO CHAVES DA LISTA DOS PRESIDENCIÁVEIS NA ELEIÇÃO INDIRETA DE 1985
Aureliano Chaves no exercício da Presidência durante a viagem de Figueiredo que resultou na exclusão de seu nome da lista dos "presidenciáveis ' da direita militar nas indiretas de 1985. Foto/Arquivo
A abertura política iniciada pelo general-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) para à devolução do poder aos civis causou um alvoroço na linha dura Exército que temia uma provável tomada do Planalto pela esquerda brizolista, principalmente.
Esta insatisfação levou os militares a exigirem cinco anos de um governo indireto a partir de 1985 e segredo “aed eternum” dos documentos com carimbo de sigiloso,confidencial, reservado,secreto e ultra-secreto.
O próximo presidente deveria ainda ser um egresso das Forças Armadas ou não, porém, com tutano suficiente para “impedir o comunismo”. Um “militar de gravata”, é o que queriam. Logo, começaram a surgir os prováveis candidatos da direita.
A lista era encabeçada pelo coronel da reserva Mário Andreazza (indicado por Figueiredo), Paulo Maluf e até o vice-presidente Aureliano Chaves. O nome do general Otávio de Medeiros, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), corria por fora.
Porque Medeiros? Ora, o SNI era à época a maior agência de informação do mundo e o seu chefe tinha em mão os segredos de todo mundo, inclusive do próprio governo. Já tinha feito dois presidentes: Carrastazu Médico (1969-1974) e João Figueiredo (1979-1985).
O general Medeiros foi cortado logo da lista pelo envolvimento do chefe da Agência Central do SNI, general Newton Cruz, com a morte do jornalista Alexandre von Boaumgarten, crime este de repercussão nacional.
Andreazza foi derrotado por Maluf na convenção do PDS. Antes disso, pensou-se no vice Aureliano Chaves. Havia,no entanto, uma dúvida sobre se ele tinha ou não tutano para “combater os subversivos”, ligado que era à Igreja Católica.
Veio então o teste. Figueiredo redigiu um decreto expulsando os padres franceses François Gouriou e Aristides Camio, por conta do envolvimento deles num confronto entre jagunços e passeiros em Araguaina (GO, hoje Tocantins), em agosto de 1981.
Um pistoleiro morreu e 13 posseiros foram presos neste confronto que deixou o sistema revoltado com os padres apontados como os responsáveis.pelo ocorrido.
Coube a Medeiros consultar em Minas se Aureliano, ex-governador do Estado, “tinha peito” para confrontar a Igreja nesta peleja. O arquivo do SNI tinha-o como um homem sem muita paciência com baderneiros–e muito enérgico.
O principal agente do DOI-CODI em Minas, Afonso Paulino, o Minhoca, dono do Jornal de Minas e amigo de Medeiros desde o tempo que o general atuou como chefe do CPOR da 4a Divisão de Exército em BH, foi consultado a respeito do assunto.
–Aureliano Chaves é corajoso o suficiente para combater a subversão? — quis saber o general, completando: –Ele tem coragem de expulsar padre, se preciso for?
Afonso não titubeou:
–Tem, general. Ele tem dado provas disso; a turma aqui deu uma repreenda num padre (Antônio Haddad, da Igreja da Boa Viagem, sequestrado e fotografado nu com uma beata) e não reclamou nada comigo.
E o general, satisfeito:
-Figueiredo vai viajar para fora do País por uns 10 dias e vai deixar um decreto em branco expulsando uns padres; vamos ver se seu conterrâneo tem coragem de expulsar estes desordeiros de batinas.
Dito e feito. Aureliano assumiu a Presidência e deparou com o decreto de expulsão dos padres na mesa. Ele chamou o chefe do Departamento da Polícia Federal, Moacir Coelho, que confirmou o envolvimento dos religiosos no conflito.
O ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel também foi consultado, mas o assunto vazou e a CNBB baixou na fazenda do vice-presidente em Três Pontas para fazer pressão na mãe de Aureliano, dizendo que seria uma heresia a expulsão dos padres.
O argumento é que o Brasil não poderia esquecer a sua origem de um País católico,apostólico e romano, e que o vice-presidente e toda a sua família eram de católicos. “Será uma decepção se ele expulsar os padres”, decretou o colegiado da CNBB.
O decreto não foi assinado e o nome de Aureliano Chaves foi cortado em definitivo da lista de presidenciáveis pelos milicos que perderam a confiança nele.
(Conteúdo extraído do livro de minha autoria DISTRITO ZERO: Mazza Edições: 2000)