BRASIL ARMOU A LÍBIA E O IRAQUE A PEDIDO DOS EUA NA DITADURA MILITAR

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O ex-presidente Ernesto Geisel durante a inspeção de um blindado fabricado pela Engesa. Foto/Internet

Parece mentira, mas não é. O Brasil ajudou a armar a Líbia e o Iraque — a pedido dos Estados Unidos — e exportou, escondido e não escondido a preço de banana, até minerais criticos (urânio, principalmente) durante a ditadura militar.

A transação fazia parte do combo de colaboração mútua entre os dois países a partir da derrubada do Governo João Goulart em 1964.

O pacote –combinado com a direita militar ultraradical –começou no Governo de Johnn F Kennedy com ações sociais e de contingência norte-americana para conter a aproximação de países latinos da Rússia, durante a guerra fria.

Veio primeiro o Programa Aliança para o Progresso. O de alimentos básicos contendo leite em pó embarcados de navio pelo governo americano a partir de 1961 e distribuídos às famílias vulneráveis em todo território nacional.

Os alimentos eram enviados às entidades assistenciais e religiosas via outro programa –o Alimento pela Paz, com a distribuição sendo feitas principalmente nas escolas primárias, com forte apelo publicitário.

O pacote incluia também o envio de recursos financeiros para os governos de Carlos Lacerda (Estado da Guanabara,depois Rio), Adhemar de Barros (São Paulo) e Magalhães Pinto (MG), para que apoiassem o golpe, como de fato ocorreu.

Por fim, o “toma lá dá cá” entre os dois países previa a ingerência do governo norte-americano em questões diplomáticas, especialmente na remessa de equipamentos bélicos e minerais estratégicos para países amigos dos EUA no Oriente Médio

Tudo isso está implicito em documentos recuperados do Serviço Nacional de Informações (SNI), cujo gabinete do ministro-chefe ficava no Palácio do Planalto e o da Agência Central no prédio do Estado-Maior das Forças Armadas, na Península dos Ministério, em Brasília.

Tive acesso a vários desses documentos datilografados em um sítio na Park Way, área nobre de Brasília, de propriedade de Heitor Aquino Ferreira. O mais influente oficial de gabinete (e historiador) do Exército, principalmente no governo Geisel (1974-1979).

A minha visita à casa de Aquino se deu durante uma reportagem pelo Jornal de Brasília no final da década de 80 sobre a apreensão de um carregamento de armas pela PF na seção de Mala Diplomática do aeroporto de Brasília.

O episódio envolvia a família do famoso “Capitão Heitor” que se defendeu da acusação, dizendo que se tratava de armas legais para coleção.

Entre os “importados” da coleção estava a pistola semiautomática Glock, com armação de polímeros que — segundo diziam –passava fácil pelos detectores de metal.

Até então havia visto Heitor Aquino pessoalmente apenas uma vez, na sala do coronel Kurt Pesseg, um ex-combatente da 2a Guerra Mundial avesso ao brado da Infantaria “Brasil acima de tudo”, porque,segundo ele, “isso é coisa da boca pra fora”.

Pesseg era diretor-presidente do jornal Última Hora de Brasília, e chamava a dobradiça que eu fazia com o fotógrafo Nélio Rodrigues de “a dupla do barulho”.

Voltando à minha visita à casa de Heitor Aquino, um assunto puxou o outro e — de repente– lá estava eu ouvindo informações valiosas sobre o comércio de armas bélicas entre o Brasil e países do Oriente Médio durante a ditadura.

Um dos contratos de cooperação armamentista entre Brasil e Iraque, “sob o crivo de autoridades americanas”, foi assinado em 1981 pela Engesa (com sede em São José dos Campos -SP), no valor de U$ 250 milhões.

O documento previa o fornecimento de tanques Urutu, com canhões 90mm, e do carro de transporte de tropa Jararaca. O acordo foi assinado às escuras, sem publicidade, mas foi revelado pela revista francesa Defense et Armament.

A mesma revista — também nos guardados de Aquino– escreveu que o Brasil vinha exportando para a Líbia aviões de patrulha-marítima, baterias do sistema astros-II, e lançadores de foguetes de saturação, bombas antiaeroportos e configurações modernas dos blindados Cascavel EE-9.

O fornecimento de armas a Trípoli somente foi interrompido com a apreensão de aviões líbios levando equipamentos bélicos para os sandinistas da Nicarágua.

A pergunta é: porque os generais brasileiros escondiam estes documentos, negados descaradamente à época pelo chanceler Roberto Abreu Soares? Medo dos EUA, que depois rompeu com os líbios? A resposta de Aquino explicou tudo: “os generais escondiam coisas um do outro e deles mesmos”.

Na verdade os generais brasileiros faziam jogo duplo nessa guerra armamentista, inclusive com a exportação escondida de minerais estratégicos (urânio, principalmente) para os Estados Unidos e países do Oriente Médio,antes amigo, e depois inimigos dos EUA.

Descobri que no final dos anos 1970, os empresários mineiros Wilson Gosling e Paulo Leite fizeram várias remessas de urânio para a NASA. O avião, tipo pata choca, saia com frequência do Aeroporto da Pampulha.

Estes minerais eram extraídos ilegalmente da região de Olhos D’água, em Belo Horizonte, Araxá e Poços de Caldas–e também de Goiás. Esta informação me foi repassada pelo ex-agente do DOI-CODI, Afonso de Araújo Paulino, falecido recentemente, e confirmadas por Aquino.

Os empresários chegaram a ser presos em flagrante com um dos carregamentos de urânio, mas foram liberados por falta de provas. A “areia” com o mineral estratégico foi despejado no pátio do 12° Regimento de Infantaria, em BH, mas ninguém no Exército sabia examinar o material que foi jogado fora.

A suspeita é de que havia envolvimento da MBR (Minerações Brasileira Reunidas, atual Vale) na transação. Por este motivo o expert em mineral estratégico que colaborava com o Exército não teria comparecido ao pátio do 12° RI para examinar e laudar o caso.

O urânio é utilizado para abastecer reatores nucleares. É altamente radioativo. Um pequeno pedaço que cabe numa mão pode gerar energia equivalente a 88 tomeladas de carvão.

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